Antes de amanhecer
Ela cura meus porres como quem tem nas mãos porcelana, metáfora ou redenção. Sem assombro, ela toma-me nos braços, apoia-me no ombro, num suspeito abraço, deixa-me estar no sofá, beija minha testa aqui e acolá, enquanto sem pudor balbucio palavras de cio.
Mesmo embriagado, comigo ela faz amor.
Alta madrugada e lá estamos, num balanço preguiçoso, num amar sem fim. Assim. Na rede, dormem as crianças; calam-se os cães outrora a ladrar lá fora. Cá somos dois e um.
Às vezes, sem motivo algum, ela chora, embora faça do meu sexo morada. Sem pressa.
E quando começa a despontar o sol, seja ele sustenido ou bemol, ela me sacode do sono profano e pra fora me põe a correr.
- Anda, homem! Se tua mulher acorda e não te encontra em casa, será um Deus-nos-acuda só.